9 de Abril 1918

 

 
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A Ofensiva Alemã

 

 

É com este título que o Major Ferreira do Amaral abre o seu livro sobre a Batalha do Lys, também conhecida como a Batalha D'Armentières, e faz uma declaração lapidar:

 

«Ninguém em Portugal chegou até hoje a ter uma noção aproximada do que foi o "9 de Abril"(5)»

 

Na verdade, grande parte das pessoas que falam sobre La Lys, não têm conhecimentos militares, incluindo aqueles que tiveram em França e inclusivamente na primeira linha das trincheiras no dia da Batalha. Para falar sobre La Lys é necessário estudar muitos documentos referentes a esse momento da história e saber enquadrar o acontecimento num cenário mais amplo.

 

A última ofensiva alemã no «front ocidental» começou no dia 21 de Março de 1918 e prolongou-se por toda a primavera desse ano até ao dia 18 de Julho, quando começou a contra-ofensiva da Entente.

 

A sequência de ataques alemães foi a seguinte:

 

21 de Março

Batalha de Amiens

9 de Abril

Batalha do Lys ( Armentières)

27 de Maio

Batalha de Soissons

9 de Junho

Ataque entre Soissons e Somme

15 de Julho

Batalha do Marne

 

Nesta última ofensiva a França vergou, a Inglaterra estremeceu e a Alemanha suicidou-se. Clemenceau declarou no parlamento: "Franceses, nós por agora recuamos!, mas nunca nos havemos de render. Bater-nos-emos em frente de Paris!, bater-nos-emos dentro de Paris, bater-nos-emos por detrás de Paris!"

 

Entretanto o exército francês conseguiu furar as linhas alemãs, através de um ataque de flanco a 18 de Julho, e termina a última ofensiva alemã da Grande Guerra. A partir desta data a Alemanha passa à defensiva até que se dá o Armistício em 11 de Novembro de 1918(6).

 

Lacouture

 

A defesa de Lacouture foi um dos muitos momentos altos da tenacidade e espírito de sacrifício que os militares do Exército português sempre demostraram quando colocados em situações difíceis ou em que foi requerido iniciativa individual. No jornal francês "Telegramme" no dia 10 de Abril de 1918 publicou: "L'Histoire parlera un jour d'un batalaillon portugais que à Lacouture s'est battu jusqu'au dernier cartouche"(1).

 

Episódios Isolados

 

O Alferes H. G. que combatia nos últimos redutos de Lacouture com um punhado de soldados, respondeu a um capitão inglês que o incitava a recuar dizendo que as vagas de tropas que se aproximavam eram portugueses a retirar, que "d'aqui ninguém retira, combatemos até à última". Acabou por retirar apelas às 17 horas com os últimos três soldados e salvou a metralhadora Lewis(2).

 

Observações

 

Os ingleses entregaram a defesa do sector aos portugueses em 1917, com uma estrutura de trincheiras e redutos que foram mantidos ao longo do período de ocupação pelo CEP. Não houve ordens de desenvolvimento da estrutura defensiva por parte da "Entente", mas também não existiu no comando português a iniciativa de preparar um sistema de uma defesa em profundidade no seu sector.

 

Quando confrontados com a ofensiva alemã em Abril, já tinha começado em Março no sector inglês, a "Linha das Aldeias" não apresentava um sistema de trincheiras suficientemente desenvolvido e a restante retaguarda sem uma simples trincheira de apoio  que permitisse uma defesa em profundidade. Os redutos eram dispersos e mostraram-se insuficientes para capacitar uma defesa coordenada(3).

 

 

1ª Divisão

 

A 1ª Divisão saiu da linha da frente no dia 8 de Abril pelas duas da madrugada, tendo sido transportada em camiões para Boesenghem. No dia 9 de Abril foi transportada de comboio para Devres e Samer, de onde seguiu a pé para Paranty, para acantonamento. Só no dia 11 de Abril é que chegou a notícia com o resultado dos combates do dia 9 de Abril(7).

 

O Esforço pedido à 1ª Divisão tinha levado os seus efectivos, incidindo principalmente sobre os seus batalhões de infantaria, a um estado extremo de fadiga e prostração, que se reflectia directamente na capacidade de combate e moral. Isto levou a que as diferentes brigadas que compunham o CEP fossem colocadas junto de unidade inglesas com a função de força não combatente mas de trabalho a cavar trincheiras. A 2ª Brigada foi colocada junto da 14ª Divisão inglesa, que também se encontrava a recuperar da perda de quase metade dos seu efectivos quando atacados em Soissons pelos alemães em 21 de Março de 1918.

 

A necessidade de criar uma linha defensiva contínua de trincheira, desde Steenbecq a Lillers, colocou milhares de homens a cavar trincheiras e para este trabalho contribuíram os batalhões do CEP durante quatro meses, de Maio a Agosto de 1918. Mesmo sendo um trabalho deslocado da 1ª Linha, sofreram bombardeamentos de aviões e da artilharia inimiga(4).

 

É preciso recordar que se o contra-ataque francês de 18 de Julho não tivesse rompido a linha alemã, Ludendorf teria executado o seu próximo ataque sobre a Flandres, na zona em que os portugueses estavam a executar os trabalhos defensivos.

 

 

Acção da 3ª Brigada da 1ª Divisão do CEP (desde 6 de Abril até 10 de Abril de 1918)

 

Nas noites de 6/7 e 7/8 a 3ª Brigada saiu da primeira linha do sector de Neuve-Chapelle para as seguintes posições com a função de Brigada de Reserva para a 2ª Divisão que se mantinha a guarnecer o sector português. Posições:

  • La Gorgue - Quartel General e o Batalhão de Infantaria 12

  • Riez Bailleul - Batalhão de Infantaria 9

  • Pont Riqueil - Batalhão de Infantaria 14

  • Croix Marmuze - Batalhão de Infantaria 15

Pouco tempo depois de se iniciar bombardeamento alemão sobre o sector português, o comandante da 3ª Brigada expediu uma ordem às 6 horas para todas as suas  unidades ocuparem a Linha da Aldeias.

 

O Batalhão de Infantaria 14 recebeu ordem Às 7 horas para ocupar os postos de:

 

1ª Companhia do Capitão Manuel Oliveira, deveria ocupar a linha Croix Barbée - Croix Rouge e colocar um pelotão no St. Vaast Post.

2ª Companhia do Tenente Perestrelo da Silva, deveria ocupar a defesa dos postos Harrow Post, Eton Post e Charter House Post.

3ª Companhia do Tenente Aníbal de Azevedo, deveria ficar de reserva no Bout Deville.

4ª Companhia do Alferes Adriano Branco, deveria ficar de reserva no Marais Post.

  • Croix Barbée Post,

  • Rue du Puits Post,

  • Rouge Croix Est Post,

  • Rouge Croix West Post,

  • Harrow Post,

  • Eton Post (ocupado com dois Pelotões da 2ª Companhia do BI14)

  • Charter House Post (ocupado com um Pelotão da 2ª Companhia BI14)

  • Bout Deville Post (Reserva)(ocupado pela 1ª Companhia BI14 - Capitão Manuel Oliveira) (ocupado pela 3ª companhia)

  • Marais Post (Reserva)(ocupado pela 4ª companhia)(apoiado por duas secções de metralhadoras inglesas)

A 1ª Companhia perdeu-se e foi colocar-se em Bout Deville, onde encontraram uma guarnição inglesa. O pelotão desta companhia que deveria ir para o posto de St. Vaast, acabou por se colocar no Fosse Post, também já ocupado por ingleses. 

 

a 2ª companhia conseguiu alcançar o locar destinado tendo ocupado com o Eton Post com dois pelotões e com o restante o Chartewr House Post.

 

 

Sob o comando do Major Vale de Andrade, o Batalhão de Infantaria 14 saiu do seu acantonamento em Pont Riqueil, apesar do violento bombardeamento que causou várias baixas no Batalhão, caindo ferido o próprio comandante do Batalhão. A 1ª Companhia ocupou a posição no posto de Eton e a 2ª companhia ocupou a posição no posto de Charter House, onde permaneceram até às 11h 45mn. Conseguiram retardar os alemães, obrigando-os a gastar 4 horas para percorrer 3Km9.

 

Tornando-se impossível manter as posições por causa do intenso bombardeamento alemão o Batalhão teve de retirar para Huit Maisons pelas 14 horas, chegando a La Fosse pelas 16 horas. No entanto, a 1ª Companhia manteve-se em combate até ao dia 10 de Abril, junto com uma unidade inglesa.

O Alferes José Baptista da Silva ficou ferido e perdeu 66 praças. O Batalhão no final do dia reorganizou-se tendo conseguido retirar de combate com um efectivo de 15 oficiais e 707 praças8.

 

 

Notas

  1. Almeida(1919), p. 166

  2. Almeida (1919), p. 167

  3. Almeida(1919), p.175

  4. Almeida(1919), p.175-176

  5. Amaral(1923), p.7

  6. Amaral(1923), pp.32-3

  7. Mea(1997), p.49

  8. Cid (1957), p. 155

  9. Henriques(2001), p. 94

 

Bibliografia

  • Almeida, Humberto de(1919), "Memórias dum Expedicionário a França, com a 2ª Brigada d'Infantaria, 1917-1918", s.e., Porto, Tipografia Sequeira.

  • Amaral, Ferreira do (1923), "A Batalha do Lys, A Batalha D'Armentières ou o 9 de Abril", 4ª ed, Lisboa, Tipografia do Comércio

  • Mea, Elvira de Azevedo e Inácio Steinhardt, (1997), "Ben-Rosh: Biografia do Capitão Barros Bastos, o apóstolo dos Marranos", Porto, Edições Afrontamento, (ISBN: 972-36-0436-1)

  • CID, António José do Amaral Balula (1957), "Subsídios para a história militar da Beira: unidades de 1ª linha de Infantaria que tiveram Quartel na Cidade de Viseu", Lisboa, Tipografia da LCGG

  • Henriques, Mendo Castro e António Rosas Leitão (2001), "La Lys 1918: Os Soldados Desconhecidos", Lisboa, Perfácio, (ISBN: 972-8563-49-3)

 

 

 

 

 

     

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